Nascemos em berço, cercado por grades, com atenção de todos para comer, nos limpar, decidir nossos rumos. Ficamos deitados a maior parte do tempo com móbiles de aviãozinho, abelhinha e paraquedista pendurados em cima de nossas cabeças para nos distrairmos enquanto estamos de olhos abertos.
Morremos da mesma maneira, deitados, muitas vezes em uma cama de hospital com as mesmas grades, atenção dos outros, sendo limpo por enfermeiras e acompanhados por parentes que decidem nossos afazeres. Em cima de nossas cabeças, ao invés de móbiles, garrafas de soro, alimentação intra-venosa que distraem os acompanhantes com suas gotas infinitas e pausadas.
Beeps, cheiro de hospital, enfermeiros mudos e almofadas envelopadas com material de fácil assepsia são um universo difícil de se esquecer.
O ritual de despedida é quase sempre capitalista e desleal com aquele que se foi.
Decidir o que se escrever na lápide, na coroa, com que roupa ele será enterrado, qual a madeira do caixão e procurar a certidão de nascimento para se preencher a de óbito são afazeres duros que temos que enfrentar minutos após um falecimento. Esse é o kit morte que, na minha humilde sugestão só devia ser providenciado na missa de sétimo dia. Assim que um ente se vai o que se quer é silêncio, paz, travesseiro e banho quente.
A jornada é dura meu amigo Long Neck, o acontecido reverbera anos em nossas sinapses.
Deixo meu adeus ao Sr. Ildeu, que ontem deixou este plano na minha presença e que levou com ele o meu desânimo de vida. Quis me mostrar que levamos da vida apenas a vida que levamos.
Frase do dia: Rest In Peace
Cena do dia: Perceber durante a visita que ele não mais respirava com dificuldade
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